História de superação: uma comunicação real através do mundo virtual
Publicado em : 22/12/2017
*Por Carla Lacerda
Ela é assídua nas redes sociais. No mês de dezembro já foram 23 postagens no Facebook. Dicas de culinária, arte, fotos de festas, shows e cantores famosos. O Instagram ainda é fechado, mas Izaura Naziozeno já tem quase três mil seguidores. Até aqui, tudo bem comum para uma jovem de 28 anos, certo? É aí que nosso olhar viciado e julgamento rápido - e raso - se enganam. As redes não são para Izaura uma forma de exibicionismo. É, na verdade, a principal forma que ela tem para se comunicar com o mundo.
“Eu acredito nela! A Izaura vai se desenvolver!” A afirmação foi feita pelo terapeuta ocupacional Dagoberto Barbosa, do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Neurociências (NEPNEURO), ao recomendar que Maria Nunes Naziozeno, 55, comprasse um Ipad para a filha. Era 2012 e havia pouco mais de um ano que a filha de Maria sofrera um acidente na estrada entre Crixás e Goiânia, próximo a Nerópolis. “Ela teve um traumatismo craniano com uma lesão grande que afetou a área do equilíbrio e da fala. Foram três meses de coma profundo e outros tantos internada no hospital. A gente só pensava no dia em que conseguiríamos levá-la pra casa”, recorda a mãe de Izaura.
Na época do acidente, março de 2011, Izaura tinha 21 anos e cursava o sétimo período de Medicina na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Ela é natural de Crixás – a cerca de 330 quilômetros de Goiânia - e mudou-se para a Capital pra fazer faculdade. Um dia. Um momento. Uma fração de segundos e, logo depois, um caminho totalmente diferente do que ela própria ou a família poderiam imaginar. Aflição, dor, angústia, tensão. Mas elas não passaram por tudo isso sozinhas. “Eu acredito nela! A Izaura vai se desenvolver!”
“Lembro até hoje quando o doutor Dagoberto comentou isso comigo. Muita gente falava que ele estava ‘doido’ de recomendar um Ipad para a minha filha. Ela não falava. Acho que muitos não acreditavam que ela sairia da cama. Esse momento me marcou”, destaca dona Maria.
Hoje é com o Ipad e com o celular que Izaura se comunica com o mundo e expressa seus sentimentos. Viu uma dica de receita da qual gostou? Ela compartilha com emojis nas redes sociais. No dia em que assistiu a um show do Milton Nascimento pela televisão, por exemplo, postou o vídeo do cantor com o emoji do coração apaixonado. Foi na apresentação do vocalista do Cidade Negra, Tony Garrido, com a Orquestra Sinfônica de Goiânia, ou ainda na da Maria Rita, ambas realizadas em Goiânia? Sim, vai tudo pras redes sociais.
“Como ela perdeu a habilidade de escrever, a comunicação passou a ser visual. Quando quer nos mostrar algo, comprar uma roupa, falar de uma pessoa, dos seus sentimentos, Izaura vai no Ipad e nos mostra. Isso facilitou muito. E, no treinamento com a fonoaudióloga, ela tem aprendido a formar palavras novamente”, comemora a mãe da jovem.
Maria Nunes reconhece que a reabilitação é um processo cheio de etapas e que precisa ser vencido dia após dia. Desde que sofreu o acidente, Izaura ficou meses em uma cama de UTI, passou pelo Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) e foi atendida por uma equipe multiprofissional do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Neurociências (NEPNEURO) até novembro deste ano. Só agora, em dezembro de 2017, ela voltou para Crixás, sua cidade natal, onde vai continuar o tratamento. “Digo a todos os pais que, porventura, passarem por situação semelhante, que não desistam jamais do seu filho. É preciso paciência, mas todo, todo o esforço vale a pena!”